O que José ensina sobre ser pai de verdade

*Por José Expedito

José Expedito-Arquivo Pessoal

Às vésperas de mais um Dia dos Pais, ao completar 70 anos de vida e quatro décadas dedicadas ao jornalismo, sinto a urgência de refletir sobre o que permanece e transcende o tempo: a paternidade responsável. O cenário contemporâneo impõe desafios sem precedentes. Vivemos imersos na era da hiperconectividade, do esgotamento físico e mental e da superficialidade dos afetos. A resposta para esse cenário, contudo, não reside em tendências passageiras, mas na postura de José, o pai terreno de Jesus — um modelo de presença e sabedoria para os dias atuais.

O primeiro grande obstáculo da sociedade moderna é o excesso de ruído. O bombardeio constante de telas, informações e cobranças frequentemente afasta a convivência familiar diária. Em contrapartida, a trajetória de José nos ensina o valor do silêncio ativo. Sem registro de palavras ditas nos Evangelhos, sua paternidade construiu-se por meio de gestos, proteção e amparo concreto. Em um tempo de discursos inflamados, o pai contemporâneo é desafiado a praticar a escuta atenta das angústias, medos e sonhos dos filhos. A autoridade paterna hoje não se estabelece pela imposição, mas pela consistência do exemplo e pela capacidade de acolhimento.

O bombardeio constante de telas, informações e cobranças frequentemente afasta a convivência familiar diária. Foto: Magnific

Outro desafio premente é a instabilidade econômica e social, geradora de ansiedade no ambiente familiar. Diante das adversidades — como a falta de abrigo em Belém e a fuga para o Egito para proteger a vida do filho —, José atuou como um trabalhador que enfrentou a incerteza com responsabilidade e coragem, sem se posicionar como vítima. Para quem hoje enfrenta pressões profissionais e financeiras, fica o aprendizado de que a provisão ultrapassa o aspecto material: trata-se de constituir um porto seguro emocional e espiritual no lar.

A paternidade exige, ainda, flexibilidade diante das mudanças. Embora planejasse uma rotina simples como carpinteiro em Nazaré, José acolheu um destino diverso do imaginado, educando com paciência e respeito à vocação do filho. O exemplo convida os pais de hoje ao desapego de idealizações rígidas, incentivando a formação para a liberdade responsável e o apoio incondicional às escolhas das novas gerações.

A paternidade exige, ainda, flexibilidade diante das mudanças. Foto: Magnific

Na interseção entre diferentes gerações, observa-se que, a despeito das transformações tecnológicas, as necessidades afetivas essenciais da alma humana permanecem as mesmas. Exercer a paternidade no século XXI configura-se como um ato diário de resistência contra o distanciamento, pautado pela presença firme e afetuosa.

A figura de José inspira o compromisso com o ambiente familiar, reforçando que o amor paterno — fundamentado na fé, no trabalho e na convivência ativa — exerce papel determinante na formação do futuro dos filhos. Como resume a passagem bíblica: “Não tenho maior alegria do que ouvir dizer que meus filhos caminham na verdade” (3 Jo 1,4).

José Expedito da Silva é jornalista e comentarista no “Café da Manhã”, jornal diário da Rádio Canção Nova.