Entre Paris e Veneza, trem histórico transforma o tempo em experiência de luxo

Com vagões restaurados das décadas de 1920 e 1930, gastronomia sofisticada e acomodações que chegam a ocupar um carro inteiro, o Venice Simplon-Orient-Express mantém viva a atmosfera da era de ouro das viagens ferroviárias.

Em uma época marcada pela velocidade, por conexões imediatas e por viagens planejadas para reduzir ao máximo o tempo de deslocamento, o Venice Simplon-Orient-Express segue na direção contrária. A bordo do trem, chegar rapidamente deixa de ser prioridade. O verdadeiro luxo está em percorrer o caminho sem pressa.

A viagem clássica entre Paris e Veneza dura uma noite. O embarque na capital francesa está previsto para o fim da tarde, por volta das 16 horas, e a chegada à cidade italiana acontece aproximadamente às 17h30 do dia seguinte. Durante o percurso, as paisagens europeias surgem pelas janelas enquanto os passageiros participam de uma experiência construída para recuperar o glamour das grandes viagens ferroviárias.

O Venice Simplon-Orient-Express não é o mesmo serviço regular inaugurado em 1883, quando o primeiro Orient Express partiu de Paris em direção a Constantinopla, atual Istambul. O trem operado pela Belmond nasceu de um projeto iniciado pelo empresário norte-americano James Sherwood, que começou a adquirir vagões históricos em um leilão realizado em Monte Carlo, em 1977.

Sherwood localizou outros carros ferroviários espalhados pela Europa e iniciou um cuidadoso processo de restauração. Artesãos especializados recuperaram painéis de madeira, trabalhos de marchetaria, luminárias, vidros, tecidos e elementos decorativos. Em 1982, o conjunto voltou aos trilhos com o nome Venice Simplon-Orient-Express.

Os vagões utilizados atualmente foram construídos entre 1926 e 1949. Cada um preserva detalhes e histórias próprias. O carro-leito 3309, por exemplo, ficou preso durante dez dias em uma nevasca ocorrida em 1929 e é associado ao episódio que inspirou Agatha Christie a escrever “Assassinato no Expresso do Oriente”.

O cuidado com a memória pode ser percebido nos corredores estreitos, nas luminárias Art Déco, nos painéis de madeira e nas peças produzidas por artesãos europeus. Durante os períodos em que o trem não circula, os vagões são encaminhados a oficinas na França e na Itália, onde passam por inspeções, limpeza e restauração.

A bordo, existem diferentes categorias de acomodação. As 32 cabines históricas são a opção mais próxima da experiência vivida pelos passageiros na década de 1920. Durante o dia, possuem assentos junto à janela; à noite, os funcionários transformam o ambiente em dormitório com camas sobrepostas. Cada cabine conta com lavatório próprio, mas os banheiros são compartilhados e ficam no final do vagão.

As 16 suítes oferecem uma interpretação mais contemporânea desse patrimônio. Com cama de casal ou duas camas individuais, possuem sala de estar durante o dia e banheiro privativo revestido em mármore. Cores, tecidos e padrões foram inspirados nas florestas, montanhas, lagos e paisagens rurais observadas ao longo das viagens europeias.

Em um nível superior estão as seis Suítes Grand, batizadas com nomes de cidades ligadas à história do trem: Paris, Veneza, Viena, Praga, Budapeste e Istambul. Cada uma possui identidade visual própria, área de estar separada, cama fixa e banheiro privativo em mármore com chuveiro.

A experiência nas Suítes Grand inclui serviço de mordomo 24 horas, refeições servidas na própria acomodação, traslados privativos e champanhe durante toda a viagem. Os interiores combinam tecidos bordados, vidros produzidos artesanalmente, mosaicos, metais dourados e trabalhos de marchetaria.

A acomodação mais exclusiva é L’Observatoire, um vagão inteiro concebido pelo artista e fotógrafo francês JR. Com aproximadamente 31 metros quadrados e capacidade para duas pessoas, o espaço foi criado como uma obra de arte em movimento.

L’Observatoire reúne quarto, banheira independente, banheiro de mármore, lounge, biblioteca, toca-discos e uma seleção de discos escolhida pelo artista. Uma porta secreta instalada atrás da biblioteca conduz a uma pequena sala de chá, equipada com lareira e uma miniatura de trem.

Claraboias circulares permitem observar o céu, enquanto móveis modulares transformam parte do lounge em uma sala de jantar para até cinco pessoas. O serviço inclui mordomo exclusivo, refeições privativas, vinhos, champanhes, destilados, traslados e experiências personalizadas. O uso exclusivo do vagão parte de 60 mil libras.

Independentemente da categoria escolhida, parte importante da experiência acontece fora das cabines. O trem possui três carros-restaurantes, nos quais são servidos um jantar de quatro etapas, café da manhã francês e almoço de três etapas, acompanhados por vinhos selecionados pelo sommelier.

Os salões preservam porcelanas, cristais, talheres e detalhes decorativos inspirados na tradição ferroviária europeia. As mesas são preparadas com o mesmo cuidado encontrado em restaurantes de alta gastronomia, enquanto o movimento do trem acrescenta uma dinâmica particular ao serviço.

Depois do jantar, muitos passageiros seguem para o carro-bar, onde coquetéis e champanhe são servidos ao som de piano. O espaço torna-se ponto de encontro para conversas que atravessam a madrugada, mantendo a atmosfera social que ajudou a transformar o antigo Orient Express em símbolo de elegância e mistério.

O código de vestimenta também faz parte do ritual. Durante o dia, recomenda-se uma produção elegante e confortável. Para o jantar, o traje é formal, e muitos homens escolhem smoking enquanto as mulheres usam vestidos longos ou produções de noite. Jeans não são aceitos a bordo.

Até o uso de celulares é tratado com discrição. Embora exista conexão Wi-Fi, a orientação é restringir aparelhos eletrônicos às cabines para preservar o ambiente nos vagões sociais. A proposta é fazer com que os passageiros se concentrem na paisagem, nas refeições e nas pessoas ao redor.

Ao chegar a Veneza, a viagem termina, mas a sensação é a de ter atravessado não apenas países, mas também diferentes épocas. O passageiro deixa Paris do século XXI e passa uma noite cercado por referências que remetem aos anos 1920 antes de desembarcar em uma das cidades mais históricas da Europa.

O Venice Simplon-Orient-Express demonstra que a sofisticação não depende apenas de tecnologia, espaço ou serviços exclusivos. Ela pode estar no silêncio de uma cabine, no cuidado de uma mesa posta, na paisagem observada pela janela e na liberdade de passar horas sem a urgência de chegar.

Mais do que um meio de transporte, o trem preserva uma forma de viajar que parecia destinada ao passado. Entre Paris e Veneza, o luxo não está apenas no destino ou na acomodação escolhida. Está no próprio tempo dedicado ao percurso.