Brunello Cucinelli transforma Solomeo em expressão de um luxo com propósito

Conhecido mundialmente como o “rei da caxemira”, o empresário italiano construiu uma das marcas mais sofisticadas da moda enquanto recuperava uma vila medieval e defendia um modelo de negócios baseado na beleza, na cultura e na dignidade do trabalho.

No alto das colinas da Úmbria, região conhecida como o coração verde da Itália, uma pequena vila medieval tornou-se a tradução física de uma maneira particular de compreender o luxo. Solomeo preserva construções de pedra, ruas estreitas, jardins, oliveiras e uma paisagem marcada pela serenidade. É nesse cenário, próximo a Perugia e Assis, que Brunello Cucinelli instalou a sede de sua marca e colocou em prática o conceito que chama de capitalismo humanista.

A trajetória do empresário começou longe dos grandes centros da moda. Nascido em 1953, em Castel Rigone, Cucinelli cresceu em uma família de agricultores. A casa não tinha eletricidade, e a rotina era orientada pelas estações, pelo trabalho no campo e por uma relação direta com a natureza. O avô costumava separar a primeira parte da colheita para a comunidade, gesto que ele recordaria mais tarde como uma lição sobre a necessidade de devolver parte do que se recebe.

A mudança da família para a cidade colocou seu pai diante de uma realidade diferente. Ele passou a trabalhar em uma fábrica e, segundo Cucinelli, chegava em casa humilhado pela maneira como era tratado. Ainda jovem, Brunello começou a se perguntar por que o trabalho, que deveria oferecer dignidade, poderia ferir as pessoas. Essa experiência se tornaria uma das origens de sua futura filosofia empresarial.

Depois de iniciar estudos em engenharia, que não concluiu, Cucinelli aproximou-se da moda. Aos 25 anos, teve a ideia que definiria sua carreira: produzir suéteres femininos de caxemira em cores vivas. Na década de 1970, o material era associado principalmente a peças clássicas, discretas e masculinas. Ao tingi-lo com tonalidades contemporâneas, ele percebeu a possibilidade de renovar um produto tradicional sem comprometer sua qualidade.

A empresa foi fundada em 1978, inicialmente com uma estrutura pequena. Cucinelli apostou no trabalho artesanal italiano, na qualidade da matéria-prima e na construção de peças destinadas ao segmento que mais tarde passaria a chamar de “luxo absoluto”. Não se tratava de acompanhar rapidamente as tendências, mas de criar roupas que pudessem atravessar os anos.

Com o crescimento do negócio, a marca ampliou sua atuação para coleções femininas e masculinas, acessórios e uma proposta completa de estilo de vida. A cartela de cores tornou-se mais neutra, com beges, cinzas, brancos e tons terrosos, enquanto a sofisticação passou a aparecer nos tecidos, no caimento e nos detalhes discretos. Essa estética ajudou a transformar Brunello Cucinelli em uma referência internacional de luxo sem ostentação.

O capítulo mais simbólico dessa história começou em 1985, quando o empresário escolheu Solomeo para abrigar sua empresa. A vila, com origens no século XIV, apresentava construções degradadas e áreas que necessitavam de recuperação. Em vez de erguer um complexo industrial distante da identidade local, ele decidiu restaurar o patrimônio existente.

Ao longo de décadas, edifícios foram recuperados, espaços públicos revitalizados e oficinas incorporadas à paisagem. A presença da empresa não deveria apagar a história de Solomeo, mas contribuir para preservá-la. Antigas construções passaram a receber atividades administrativas e artesanais, enquanto terrenos ocupados por estruturas industriais foram devolvidos à agricultura, com vinhedos, oliveiras, pomares e plantações de trigo.

A recuperação ultrapassou os limites da fábrica. Solomeo ganhou teatro, anfiteatro, jardins, biblioteca e espaços dedicados à convivência. Inaugurado em 2008, o Teatro Cucinelli tornou-se o centro do Fórum das Artes e passou a receber apresentações de música, dança e dramaturgia. No mesmo ano, uma biblioteca de obras clássicas e modernas abriu as portas na Academia Neo-Humanista Aureliana.

Em 2010, Brunello e sua esposa, Federica, criaram uma fundação voltada à cultura, à preservação do território e à valorização do conhecimento. Anos depois, o Projeto para a Beleza transformou a área abaixo da vila em parques e espaços agrícolas. A iniciativa priorizou a recuperação da paisagem e a retirada de antigas construções industriais consideradas incompatíveis com o ambiente.

Outro projeto importante foi a criação, em 2013, das Escolas de Estilo e Alta Manufatura de Solomeo. Inspiradas em pensadores como William Morris e John Ruskin, elas oferecem formação em atividades artesanais e procuram despertar nos jovens o interesse por ofícios que dependem da habilidade das mãos. Costura, modelagem, corte e outras técnicas são tratadas não como funções menores, mas como formas de conhecimento que precisam ser preservadas.

Cucinelli defende que uma empresa deve gerar lucro, mas chama atenção para a maneira como esse resultado é alcançado. Para ele, o crescimento precisa respeitar as pessoas, o território e o tempo necessário para produzir algo de qualidade. Em Solomeo, os ambientes de trabalho recebem luz natural, as refeições ocupam um espaço importante na rotina e o expediente procura respeitar os limites entre a vida profissional e a vida pessoal. O envio de mensagens depois do horário de trabalho é desencorajado.

Essa filosofia ganhou o nome de capitalismo humanista. O conceito não rejeita o mercado nem a rentabilidade. Ao contrário, defende o que o empresário chama de “lucro justo”, capaz de remunerar investidores e garantir o desenvolvimento da companhia sem reduzir os trabalhadores a instrumentos de produção.

Em 2012, a Brunello Cucinelli abriu seu capital na Bolsa de Milão. A entrada no mercado financeiro foi acompanhada pela defesa de um “crescimento gracioso”, expressão utilizada para descrever uma expansão controlada, sem banalizar a marca ou comprometer os valores apresentados desde sua origem.

Hoje, as roupas produzidas em Solomeo são vendidas nas principais capitais internacionais e vestem empresários, artistas e personalidades. O prestígio, porém, não está ligado a logotipos evidentes. A marca construiu sua identidade por meio da qualidade dos materiais, do acabamento artesanal e de uma elegância que procura ser percebida sem precisar ser anunciada.

A trajetória do empresário também chegou ao cinema no filme “Brunello: The Gracious Visionary”, dirigido por Giuseppe Tornatore, cineasta premiado com o Oscar por “Cinema Paradiso”. A produção acompanha sua vida e apresenta Solomeo como cenário de um projeto que reúne moda, filosofia, arquitetura e responsabilidade social.

Entre seus novos sonhos está a Biblioteca Universal de Solomeo, concebida para reunir obras de filosofia, arquitetura e literatura de diferentes partes do mundo. O projeto ocupa uma construção do século XVIII próxima ao teatro e foi pensado como um presente para as próximas gerações, com livros impressos e espaços destinados à leitura, ao estudo e à contemplação.

O modelo criado por Cucinelli desperta admiração, mas também provoca uma pergunta importante: seria possível aplicar os mesmos princípios fora de uma marca posicionada no segmento mais elevado do luxo? Não existe uma resposta simples. Ainda assim, Solomeo demonstra que crescimento econômico, preservação cultural e qualidade de vida não precisam ser objetivos incompatíveis.

Mais do que a sede de uma empresa, a vila tornou-se parte essencial daquilo que a marca representa. Em Solomeo, o luxo não se limita à caxemira, ao preço de uma peça ou ao prestígio de uma etiqueta. Ele aparece no tempo dedicado ao trabalho bem executado, no respeito à paisagem, na transmissão dos saberes e na tentativa de colocar a dignidade humana no centro das decisões.

Brunello Cucinelli construiu uma empresa internacional, mas escolheu permanecer ligado ao lugar onde encontrou sua inspiração. Ao restaurar uma vila medieval, também apresentou uma ideia de futuro: a de que a beleza pode gerar valor, a cultura pode orientar os negócios e o sucesso pode ser medido não apenas pelo que se acumula, mas pelo que se preserva e se devolve ao mundo.