Por: Jefferson de Almeida
Nova York teve uma noite de encontro entre música, literatura e moda nesta segunda-feira, 19 de outubro, com a gala que marcou a estreia mundial de “Lincoln in the Bardo”, no Metropolitan Opera, no Lincoln Center. Entre as presenças estavam Dua Lipa, Amy Poehler, Bowen Yang e Matt Rogers, que acompanharam a chegada aos palcos da adaptação do romance de George Saunders, vencedor do Booker Prize de 2017.

A ocasião também entrou para a história da instituição: Missy Mazzoli tornou-se a primeira mulher a ter uma ópera apresentada em estreia mundial pelo Met. Com libreto de Royce Vavrek, a produção colocou a criação contemporânea no centro de uma das mais tradicionais casas de ópera do mundo.
O protocolo da gala acompanhou a importância da estreia. A programação previa recepção com coquetel às 18h, jantar às 18h30 e apresentação às 20h, com champanhe e sobremesa no intervalo. As modalidades de apoio incluíam ingressos individuais de US$ 3,5 mil e US$ 5 mil para a experiência completa, além de mesas que chegavam a US$ 50 mil — uma combinação de celebração artística e contribuição à instituição.
No tapete vermelho, Dua Lipa chamou a atenção com um vestido preto da coleção primavera de 2027 da Ferragamo, assinada por Maximilian Davis. Ombros à mostra, brilho de paetês, fenda e cauda deram à escolha a dimensão teatral que uma noite na ópera permite. A cantora compareceu acompanhada de Callum Turner, aproximando o universo da música pop de uma estreia cercada de expectativa no circuito cultural.
Amy Poehler, Bowen Yang e Matt Rogers reforçaram a presença do entretenimento na noite. O encontro de artistas de diferentes áreas ampliou a repercussão de uma produção cuja relevância ultrapassa a lista de convidados: o Met apresentava uma obra inédita baseada em um livro que encontrou leitores muito além do público habitual da ópera.
No palco, a direção musical ficou a cargo de Yannick Nézet-Séguin, diretor musical da casa. O barítono sueco Peter Mattei assumiu o papel de Abraham Lincoln, em um elenco que reúne Christine Goerke, Stephanie Blythe, Anthony Roth Costanzo e Ryan McKinny. Na estreia, Everett Sobers interpretou Willie, o filho do presidente americano.
A história se passa em 1862, durante a Guerra Civil dos Estados Unidos, e parte de uma perda íntima: a morte de Willie Lincoln, aos 11 anos. Devastado, o pai visita o túmulo do menino em um cemitério de Georgetown. Ao redor desse encontro, Saunders constrói um universo de vozes e espíritos que ainda não aceitaram plenamente a própria morte.
O “bardo” do título designa um estado de transição entre a morte e uma próxima existência. Nesse espaço, lembranças, apegos e desejos interrompidos aproximam personagens de trajetórias distintas. A dor de Lincoln ganha, assim, uma dimensão que vai além da biografia presidencial: trata do vínculo entre pais e filhos e da dificuldade humana de se despedir.
A adaptação mantém espaço para o humor e para o estranhamento, elementos importantes do romance. A proposta oferece ao público uma experiência em que o sobrenatural convive com sentimentos reconhecíveis, sem transformar o luto em uma narrativa de tom único.
A direção cênica de Lileana Blain-Cruz levou esse universo ao palco com recursos que incluem bonecos, efeitos pirotécnicos e até um cavalo vivo. Cenários de Adam Rigg e figurinos de Montana Levi Blanco participam da construção de uma paisagem teatral em que os habitantes do cemitério ganham presença, movimento e identidade.
A montagem também integra a programação do Met no ano das comemorações dos 250 anos dos Estados Unidos. Ao escolher um episódio de vulnerabilidade de uma figura central da história americana, a obra abre espaço para pensar sobre liderança, compaixão e as perdas individuais que atravessam grandes acontecimentos.
Depois da gala, “Lincoln in the Bardo” segue em cartaz até 14 de novembro, com oito apresentações adicionais. Cantada em inglês, a produção tem duração estimada de duas horas e 40 minutos, incluindo o intervalo. Para quem passa por Nova York neste período, a temporada oferece a oportunidade de conhecer uma nova ópera no mesmo palco que há gerações recebe os grandes títulos do repertório.

… Bom dia! “Viver não é esperar a tempestade passar, é aprender a dançar na chuva”.
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