"Em uma simulação na qual o estímulo gerasse inicialmente 0,8 ponto de crescimento, uma reação adversa dos juros e do dólar poderia retirar de 0,2 a 0,4 ponto desse impulso", Antonio Patrus, CEO da Bossa Invest. Foto: Magnific

O resultado das eleições e a reeleição presidencial acenderam um alerta no mercado financeiro para a urgência de sinalizações fiscais consistentes. Analistas e executivos do setor de investimentos apontam que as projeções do Relatório Focus divulgadas no dia seguinte à votação, mas colhidas antes do pleito já se encontram defasadas e passam por revisões diante da necessidade de sustentabilidade das contas públicas.

De acordo com analistas, o cenário-base pré-eleitoral previa a taxa Selic em 11,75% e um crescimento do PIB de 1,31% para 2027. No entanto, estimativas da Instituição Fiscal Independente (IFI) indicam uma dívida bruta de 86,4% do PIB e um déficit primário de 0,7% do PIB no próximo ano. Para neutralizar o déficit projetado pela IFI, o país precisaria de uma melhora fiscal na ordem de R$ 102 bilhões. Se o objetivo for alcançar um superávit primário de 0,5% a 1% do PIB, o esforço financeiro pode variar de R$ 150 bilhões a R$ 174 bilhões anuais.

Edgar Araújo, CEO da Azumi Investimentos. Crédito: Divulgação

Riscos de Estímulo via Gastos Públicos

Especialistas alertam que tentar impulsionar a atividade econômica exclusivamente pela expansão dos gastos públicos como um aporte de 1% do PIB, equivalente a cerca de R$ 145 bilhões pode produzir efeitos limitados e transitórios. Em simulações de estresse, o encarecimento do crédito, a reação da curva de juros e a alta do dólar neutralizariam entre 25% e 50% do crescimento inicialmente gerado pelo estímulo estatal.

Sem um ajuste crível, a percepção de risco deve fazer investidores exigirem prêmios maiores, o que pode deslocar a Selic de 2027 para a faixa entre 12,25% e 13%, reduzindo a expansão do PIB para um patamar entre 1% e 1,2%. O ritmo projetado para o Brasil contrasta com a estimativa do Fundo Monetário Internacional (FMI), que prevê um crescimento mundial de 3,4% para o mesmo período.

A incerteza sobre a trajetória das contas públicas afeta diretamente a alocação de capital e o apetite por risco. Foto: Magnific

Impactos nos Investimentos e no Mercado de Capitais

A incerteza sobre a trajetória das contas públicas afeta diretamente a alocação de capital e o apetite por risco. Na Bolsa de Valores, a elevação da taxa de desconto deve pressionar a precificação de ações, levando a uma postura mais seletiva e focada na geração de caixa de empresas. Além disso, a combinação de juros elevados com a volatilidade cambial pode corroer os ganhos reais em moeda forte, estimulando investidores a buscar diversificação em ativos internacionais e ETFs.

A incerteza sobre a trajetória das contas públicas afeta diretamente a alocação de capital e o apetite por risco. Foto: Magnific

Para o setor de crédito e investimentos privados, o custo de financiamento mais alto tende a adiar projetos de longo prazo em setores fundamentais, como os mercados imobiliário, rural e empresarial. A avaliação do mercado financeiro é que fatores como a composição da equipe econômica, a articulação política no Congresso Nacional e o ganho de produtividade das empresas serão determinantes para garantir a estabilidade e a retomada sustentável do crescimento.