*Por Lucas Freire

Há uma cena que se repete em cada canto do Brasil e que, se analisada friamente, parece não fazer sentido: adultos cheios de boletos para pagar, empregos para dar conta e filhos para criar interrompem a rotina para assistir a onze pessoas correndo atrás de uma bola. A atividade não gera renda, não resolve os problemas do cotidiano, não emagrece e nem enriquece ninguém. Mesmo assim, metade do país organiza a sua semana em função dos horários das partidas. Torcer, afinal, tornou-se uma das poucas ações humanas realizadas sem a exigência de um motivo produtivo aparente.
Essa dinâmica está diretamente ligada ao conceito de Play (o ato de jogar ou brincar). Trata-se da capacidade humana de realizar algo pelo simples prazer da ação, sem que ela precise ter uma utilidade prática. Enquanto as crianças dominam essa arte de forma natural, os adultos a desaprendem progressivamente, pressionados pela ideia de que cada minuto do dia deve ser útil. O descanso passa a ser visto como uma forma de “recarregar as energias para produzir mais”, os hobbies são transformados em fontes de “renda extra” e as brincadeiras dos filhos são terceirizadas para escolinhas focadas em desenvolver competências futuras. Nesse cenário, parar para assistir a um jogo funciona como um pequeno ato de rebeldia: por 90 minutos, entrega-se o tempo a algo sem serventia prática, mas que ainda assim importa.

O Estado de “Flow” e as Lições do Gramado
Quem está dentro de campo vivencia esse processo de forma ainda mais intensa. Durante uma partida, as preocupações com as contas do dia seguinte desaparecem. As decisões precisam ser tomadas em frações de segundo, fazendo com que o corpo responda antes mesmo do raciocínio lógico. A psicologia define esse mergulho absoluto no instante presente como Flow (fluxo) — um estado de envolvimento tão profundo em que o tempo parece sumir e o resto do mundo fica em espera. Esse fenômeno pode ocorrer ao cozinhar, tocar um instrumento ou mergulhar, mas acontece constantemente no futebol. Quanto maior o estado de fluxo, maior é a presença e a entrega do indivíduo na atividade.

Por outro lado, o esporte também oferece uma lição realista: a de que é possível fazer tudo correto e, ainda assim, perder. O futebol ensina de forma severa, disfarçado de diversão, a diferença entre o que está sob o controle do indivíduo e o que não está. O passe depende de quem joga, mas o resultado final nunca dependerá exclusivamente dele. Quem pratica o esporte aprende a lidar com o erro sem se desestruturar, assimilando que o controle total é impossível e que é viável encontrar satisfação mesmo diante das incertezas.
Conexão Humana Contra a Epidemia da Solidão
Outro aspecto fundamental do futebol é a sua capacidade de reunir pessoas. Integrar um time significa fazer parte de um grupo que conta com a sua presença, nota a sua ausência, comemora e lamenta em conjunto. Em uma época em que a solidão e o esgotamento mental atingem níveis alarmantes, esse senso de comunidade possui um valor significativo.
Esse vínculo se estende para além das quatro linhas. Em períodos de grandes competições, cidades inteiras interrompem suas atividades, vizinhos que não se conhecem dividem abraços e cidadãos com visões totalmente opostas unem-se pela mesma causa. Por algumas horas, o coletivo relembra a experiência de sentir em conjunto.

Evidentemente, o potencial comercial desse ecossistema não passa despercebido pelo mercado. Atualmente, o futebol é monetizado em cada detalhe: camisas funcionam como outdoors, placas ao redor do campo exibem marcas de patrocinadores, intervalos são oferecidos por grandes empresas e plataformas de apostas disputam a atenção do espectador a cada lance lateral. No entanto, o núcleo do jogo resiste. No momento em que a bola entra no ângulo, os anúncios perdem o protagonismo. O esporte permanece como um dos últimos refúgios de entretenimento puro em meio à pressão pela produtividade constante.
O Verdadeiro Oposto do Jogar
Embora seja comum associar o ato de jogar como o oposto do trabalho, a realidade clínica mostra que o verdadeiro oposto do Play é a tristeza profunda — o estado em que o interesse desaparece e tudo passa a ser encarado como obrigação. Por essa razão, manter o espaço para o jogo não é uma futilidade, mas uma questão de saúde mental. O adulto que perde totalmente a capacidade de se divertir com o lúdico não se tornou mais maduro ou sério; na maioria das vezes, encontra-se exausto e vulnerável ao adoecimento.
O futebol cumpre o papel de afastar temporariamente as obrigações ligadas ao retorno financeiro ou produtivo, devolvendo o prazer de realizar algo simplesmente por gostar. Em uma rotina pautada por metas, planilhas e prazos, dedicar uma fração do dia a uma atividade sem utilidade prática é um indicativo de equilíbrio. Afinal, uma mente saudável é aquela que preserva a capacidade de jogar.
Lucas Freire é psicólogo e autor do livro “Playfulness — Trilhas para uma vida resiliente e criativa!





