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Por que estamos tão esgotados?

Imagem ilustrativa. Foto: Freepik

*Por Juliana Zellauy

Juliana Zellauy Foto: Divulgação/Arquivo Pessoal

Ultimamente, a palavra “cansaço” deixou de ser apenas um estado passageiro e passou a se tornar quase uma identidade coletiva. Muitas pessoas relatam sentir-se constantemente esgotadas, seja mental, emocional ou até fisicamente. Isso levanta uma pergunta importante: por que estamos tão cansados?

Parte da resposta está em como tradicionalmente entendemos saúde mental. Durante muito tempo, considerou-se que estar mentalmente saudável significava simplesmente não apresentar um transtorno psicológico. Ou seja, na ausência de ansiedade, depressão ou outras condições clínicas, presumiríamos que a mente estaria funcionando bem.

Durante muito tempo, considerou-se que estar mentalmente saudável significava simplesmente não apresentar um transtorno psicológico. Foto: Freepik

Mas saúde mental não é apenas a ausência de doença. Ela também envolve a presença de um funcionamento cognitivo e emocional saudável. Isso inclui capacidade de atenção, clareza mental, autoconhecimento, regulação emocional, flexibilidade psicológica, autocontrole, capacidade de tomar boas decisões, entre outros.

Quando essas habilidades relacionadas às chamadas Funções Executivas começam a falhar, mesmo sem um diagnóstico clínico, o resultado frequentemente aparece na forma de fadiga mental, irritabilidade e sensação de sobrecarga constante.

O esgotamento, portanto, muitas vezes não é um sinal de fraqueza individual, mas um indicador de que nossos sistemas mentais estão operando em modo de sobrevivência. Foto: Pexels

Vivemos em um ambiente que exige muito do cérebro. A quantidade de estímulos, decisões, informações e pressões diárias pode ultrapassar a capacidade natural do nosso sistema de processar tudo de forma equilibrada. Ao mesmo tempo, muitos dos hábitos que sustentam o bom funcionamento cerebral, tais como pausas mentais, sono reparador, atenção plena e regulação emocional, acabam sendo negligenciados.

O esgotamento, portanto, muitas vezes não é um sinal de fraqueza individual, mas um indicador de que nossos sistemas mentais estão operando em modo de sobrevivência por tempo prolongado.

Mas você já percebeu que nem tudo que nos recarrega é necessariamente descanso?

Veja, muitas atividades que nos devolvem vitalidade podem até cansar o corpo, mas ainda assim restauram nossa energia vital. Isso acontece porque elas despertam, nosso sentido de propósito, algo fundamental para o cérebro humano. Conversar com pessoas queridas, dedicar-se a um projeto significativo ou contribuir para algo maior do que nós, pode exigir esforço, mas, paradoxalmente, também nos reenergiza.

No meu mais recente livro Neurociência Positiva, proponho olhar para a saúde mental de forma mais ampla. Em vez de perguntar apenas “como evitar o adoecimento”, devemos começar a perguntar também “o que faz o cérebro funcionar bem?”

Afinal, o cérebro humano não foi feito apenas para suportar demandas, mas para encontrar sentido, equilíbrio e direção. Foto: Pexels

Essa mudança de perspectiva é fundamental para cultivarmos efetivamente uma saúde mental e não apenas para evitarmos, ou reduzirmos, a incidência de doenças ou os seus sintomas.

Assim, talvez o cansaço coletivo que vemos hoje seja, na verdade, um convite para repensarmos nossa percepção de saúde, nossa relação com a produtividade e com aquilo que realmente nos devolve energia. Afinal, o cérebro humano não foi feito apenas para suportar demandas, mas para encontrar sentido, equilíbrio e direção.

Juliana Zellauy é especialista em Neurociência e Comportamento, com formação em Psicologia Positiva e em Mindfulness.