Sinais discretos do câncer de garganta

Uma ferida na boca que demora a cicatrizar, uma rouquidão persistente ou o surgimento de um caroço no pescoço são sintomas frequentemente associados a problemas simples do cotidiano. No entanto, quando esses sinais permanecem por semanas, podem indicar algo mais grave: o câncer de cabeça e pescoço. Esse grupo de tumores surge principalmente em regiões como a boca, garganta, faringe e laringe.

Apesar da gravidade da doença, especialistas alertam que boa parte dos casos poderia ser evitada. O grande desafio atual ainda é o desconhecimento da população sobre os fatores de risco e os sintomas iniciais, o que acaba contribuindo para diagnósticos tardios.

Apesar da gravidade da doença, especialistas alertam que boa parte dos casos poderia ser evitada. Foto: Magnific

O Perigo de Minimizar os Sinais do Corpo

A dificuldade de reconhecer os sintomas quase atrasou o diagnóstico do administrador Fernando Ihara, de 57 anos. Em outubro de 2025, o que ele acreditava ser uma crise de sinusite revelou-se, na verdade, um câncer de orofaringe.

“Eu tive muita sorte. Foi a minha esposa quem sugeriu que eu fizesse uma tomografia para investigar uma possível sinusite. Eu nunca tive sinusite, mas resolvi fazer o exame. Foi aí que tudo começou”, relembra Fernando.

O câncer de cabeça e pescoço está entre os tumores mais importantes em termos de incidência e mortalidade. Foto: Magnific

O administrador conta que já sentia um incômodo na garganta antes do exame, mas não imaginava a gravidade. “Achava que era algo comum, uma gripe ou até sequela da Covid. Com a correria do dia a dia, a gente acaba minimizando os sinais que o corpo dá.”

Para o oncologista Gilberto Castro, do Hospital Sírio-Libanês, histórias como a de Fernando são mais comuns do que se imagina.

“O câncer de cabeça e pescoço está entre os tumores mais importantes em termos de incidência e mortalidade. Ao mesmo tempo, é uma doença amplamente passível de prevenção”, afirma o médico. “Se conseguirmos reduzir o tabagismo e o consumo de álcool e ampliar a vacinação contra o HPV, a incidência desses tumores pode cair de forma drástica.”

Quando Acender o Sinal de Alerta?

Os primeiros sintomas desse tipo de câncer costumam ser discretos, exigindo atenção redobrada:

  • Rouquidão: Qualquer alteração na voz por mais de duas ou três semanas deve ser investigada.
  • Lesões na boca: Feridas que não apresentam melhora precisam de avaliação.
  • Nódulos: Caroços no pescoço (popularmente conhecidos como ínguas) que continuam crescendo não devem ser ignorados.

A identificação precoce pode começar de maneira simples, muitas vezes em uma consulta de rotina. “Muitas vezes, basta examinar a boca. Por isso, o dentista tem papel fundamental na identificação precoce da doença”, explica o Dr. Gilberto Castro.

O oncologista Guilherme Harada, também do Hospital Sírio-Libanês, reforça a importância da atenção aos nódulos cervicais, especialmente nos tumores que possuem relação com o vírus do HPV. “A prevenção e a detecção precoce são pontos fundamentais quando falamos em tumores de cabeça e pescoço. A medicina bucal tem um papel importante nesse acompanhamento”, destaca.

A Relação com o HPV e Dados da Doença

Nos últimos anos, o câncer de orofaringe associado ao vírus do HPV consolidou-se como uma preocupação crescente para a saúde pública mundial. Dados do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), dos Estados Unidos, apontam que o vírus está envolvido em cerca de 60% a 70% dos diagnósticos de câncer de orofaringe naquele país.

No Brasil, o cenário também exige atenção: o Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima a ocorrência de mais de 42 mil novos casos de câncer de cabeça e pescoço por ano. O perfil desses pacientes costuma ser diferente dos tumores tradicionais causados por cigarro e álcool, atingindo pessoas mais jovens e sem os fatores de risco habituais.

Resposta Completa e Conscientização

Após passar por sessões de quimioterapia e radioterapia, Fernando Ihara recebeu em maio deste ano a notícia mais esperada: seu primeiro exame de PET-CT após o tratamento apontou resposta completa à terapia, indicando o sucesso dos procedimentos. Hoje, em acompanhamento médico, ele faz questão de compartilhar sua jornada para conscientizar outras pessoas.

“Primeiro, é preciso aceitar o diagnóstico. Depois, confiar na equipe, seguir as orientações e continuar lutando. O medo existe, mas não pode ser maior do que a vontade de seguir em frente. Quando recebemos um diagnóstico de câncer, percebemos que muitos dos problemas do dia a dia deixam de ter importância. Saúde muda tudo. Por isso, não ignore os sintomas. Respeite o seu corpo”, finaliza o administrador.

O Dr. Gilberto Castro encerra com uma recomendação direta: “Suspeitou de alguma lesão ou sintoma persistente? Procure um médico ou dentista e faça a investigação o mais rápido possível. O diagnóstico precoce é o que mais aumenta as chances de sucesso no tratamento.”