O perigo de ignorar os sinais do corpo

*Por Mariana Schamas

Foto: Divulgação | VR Editora – Latitude

Em uma sociedade que valoriza a ideia do “aguente firme”, resistir ao sofrimento físico costuma ser encarado como demonstração de força, enquanto a busca por ajuda médica ainda é interpretada, por muitos, como sinal de fragilidade. Esse padrão de comportamento atrasa a prevenção e o tratamento da dor crônica, fazendo com que indivíduos convivam com o desconforto por anos até procurarem auxílio especializado. Quando ignorada, a dor deixa de ser um mero sintoma e pode se transformar em uma doença.

Um levantamento realizado pela Vital Strategies e pela Umane, em parceria com a Universidade Federal de Pelotas (UFPel), revela que 62% da população deixa de procurar atendimento médico quando necessita. O dado acende um alerta sobre a necessidade de compreender as razões que levam as pessoas a adiarem os cuidados com a própria saúde.

Quando ignorada, a dor deixa de ser um mero sintoma e pode se transformar em uma doença. Foto: Magnific

Soluções rápidas e normalização do adoecimento

É comum que o ser humano busque eliminar desconfortos de forma imediata sem refletir sobre as causas do adoecimento. Mesmo quando reconhecem a origem do problema, muitas pessoas tendem a normalizar o contexto, justificando o mal-estar por meio de rotinas intensas de trabalho, longos períodos em pé ou pelo uso de cadeiras inadequadas. Desta forma, o foco passa a ser a remoção rápida da dor para o retorno imediato às mesmas atividades que geraram o problema.

Embora a dor funcione como um alerta do organismo de que algo exige atenção, o significado atribuído a ela varia culturalmente. Em determinados cenários, o sofrimento é associado à coragem, superação ou mérito; em outros, é visto com vergonha. A reação individual diante da dor sofre influência direta das experiências de vida, crenças familiares, cultura e contexto social.

É comum que o ser humano busque eliminar desconfortos de forma imediata sem refletir sobre as causas do adoecimento. Foto: Magnific

O caráter biopsicossocial da dor

A ciência compreende a dor como um fenômeno biopsicossocial, resultante da interação contínua entre fatores biológicos, psicológicos e sociais. O processo não envolve apenas uma resposta física do corpo, mas também a interpretação dada às experiências e ao ambiente ao redor.

Pensamentos como “é normal sentir dor nas costas por ficar muito tempo sentado” ou “carreguei peso demais” exemplificam como a dor passa a ser aceita como um elemento inevitável da rotina diária. A consequência é a repetição dos mesmos hábitos e a manutenção do sofrimento.

O ambiente também altera a forma de expressar o desconforto. Há quem esconda a dor no local de trabalho para evitar a imagem de vulnerabilidade, manifestando o sintoma apenas no ambiente familiar, enquanto outros fazem o caminho inverso. Essa dinâmica demonstra que a manifestação da dor está associada aos significados atribuídos a ela e às relações interpessoais construídas.

Consciência e mudança de hábitos

Especialistas ponderam que nem toda dor deve ser eliminada sumariamente, visto que existem desconfortos associados a processos de crescimento, aprendizado e superação. O ponto crítico reside em transformar o sofrimento persistente em algo rotineiro e ignorar os sinais emitidos pelo corpo.

A alteração desse panorama exige tomada de consciência. Embora o cérebro tenda a repetir padrões de comportamento já conhecidos — mesmo que prejudiciais —, ele possui capacidade adaptativa para aprender novos caminhos. Questionar crenças consolidadas, modificar hábitos nocivos e buscar auxílio profissional quando necessário possibilita a criação de novas conexões neurais e amplia a capacidade de autocuidado, reforçando que reconhecer o momento de mudar é o verdadeiro passo para a preservação da saúde.

Mariana Schamas* é cinesiologista, especialista em dor crônica, Coordenadora do curso Dor e Movimento HCX USP, Professora e autora do Livro “ A Dor é um Convite para a Mudança” Editora Latitude.