Por Deborah Dubner

Nem toda agressão deixa marcas visíveis na pele. Muitas vezes, a violência gera cicatrizes imperceptíveis que corroem gradualmente a autoestima, a confiança e a esperança da vítima. É para lançar luz sobre essa dimensão do problema que existe o Agosto Lilás, campanha que coincide com a celebração dos 20 anos da promulgação da Lei Maria da Penha. Duas décadas após sua criação, a legislação segue como um marco de proteção e como um lembrete contínuo sobre a necessidade de conscientização, informação e coragem para interromper o ciclo de abusos.
Diante desse cenário, surge uma questão central: por que muitas mulheres ainda não conseguem denunciar? A resposta envolve compreender os processos internos que silenciam as vítimas ao longo do tempo. A violência não restringe seus danos ao corpo físico; ela compromete drasticamente a maneira como a mulher sente, pensa e enxerga suas próprias perspectivas de futuro.

O mecanismo psicológico do medo e da vergonha
Sob a perspectiva da Ciência das Emoções, entende-se que sentimentos tanto agradáveis quanto desagradáveis cumprem papéis funcionais na experiência humana. Reações como medo e vergonha, por exemplo, são mecanismos essenciais para a proteção diante de perigos reais. O problema ocorre quando essas respostas emocionais se tornam um estado permanente, transformando-se em uma prisão psíquica.
A mulher mantida sob constante intimidação passa a viver em um estado de insegurança, impotência e desesperança. Quando o cérebro humano percebe uma ameaça contínua, ele passa a operar prioritariamente no modo de sobrevivência. Nessa condição, o foco de atenção do indivíduo se estreita, o organismo permanece em estado de alerta ininterrupto e a capacidade de vislumbrar saídas para a situação fica severamente comprometida.

Aprendizado por repetição e o papel da rede de apoio
A exposição prolongada e recorrente à violência pode induzir a um aprendizado doloroso: o sentimento de que qualquer tentativa de reação ou fuga será ineficaz. Quando esse padrão de desesperança se consolida, o silêncio passa a ser percebido pela vítima como a única alternativa possível.
Por esse motivo, a intervenção de uma rede de apoio estruturada é fundamental. Para reverter o quadro, o cérebro precisa vivenciar episódios repetidos de segurança para voltar a reconhecer novas possibilidades. Ações de acolhimento, proteção e suporte efetivo são passos indispensáveis para a reconstrução dessa percepção de segurança.
Responsabilidade coletiva
O Agosto Lilás extrapola o incentivo à denúncia individual e faz um chamado para que toda a sociedade atue na criação de ambientes seguros. É preciso garantir espaços onde as mulheres possam relatar abusos sem o receio de serem desacreditadas, julgadas ou desamparadas.
Embora a violência altere profundamente a relação da pessoa com o mundo e consigo mesma, contextos de proteção e acolhimento também possuem capacidade de transformação. Ao encontrar suporte e confiança, a vítima pode voltar a enxergar perspectivas onde antes via apenas ameaças, permitindo que o silêncio dê lugar à reconstrução de sua autonomia.

Onde buscar ajuda
O enfrentamento à violência não precisa ser feito de forma isolada. Para mulheres que vivenciam situações de abuso ou para quem conhece alguém nessa condição, a Central de Atendimento à Mulher está disponível pelo Ligue 180. O serviço é gratuito, confidencial e funciona 24 horas por dia em todo o país.





