*Por Arnaldo Pinto Guedes de Paiva Neto

A forma como uma pessoa chega aos 70 anos pode ser comparada à clássica fábula da formiga e da cigarra: a formiga representa quem se prepara para o envelhecimento, enquanto a cigarra simboliza quem não se planeja e corre o risco de depender mais dos outros no futuro. O organismo humano funciona como um sistema aberto, recebendo matéria e energia do ambiente para transformá-las, liberando calor e resíduos — um processo semelhante ao de uma casa que só se mantém organizada quando a desordem é colocada para fora.
Nesse funcionamento diário, a própria respiração traz um custo biológico. O oxigênio utilizado na produção de energia pode originar espécies reativas, como os radicais livres. Quando esses compostos superam as defesas e os mecanismos de reparo do corpo, causam danos às células. Entre as estruturas mais vulneráveis estão os telômeros, responsáveis por proteger as extremidades dos cromossomos. Eles se encurtam naturalmente a cada divisão celular, mas o estresse oxidativo pode acelerar esse desgaste.

Embora a longevidade humana tenha raízes na evolução, o aumento na expectativa de vida foi impulsionado pelos avanços da medicina e da sociedade, que reduziram mortes precoces causadas por infecções, traumas e doenças. Atualmente, o maior desafio é viver esses anos adicionais com autonomia, evitando a dependência provocada por condições que poderiam ter sido prevenidas.
Fatores como hipertensão, diabetes, colesterol LDL elevado, triglicérides altos, obesidade, tabagismo e sedentarismo costumam agir de forma silenciosa, ao mesmo tempo em que elevam o risco cardiovascular. O LDL elevado favorece o surgimento da aterosclerose nas artérias, aumentando as chances de doenças vasculares cerebrais, que podem levar à demência vascular. Durante a meia-idade, esse colesterol alto também se relaciona a um risco maior de desenvolvimento da doença de Alzheimer no futuro. Como alterações vasculares podem coexistir com o Alzheimer e agravar o declínio cognitivo, cuidar dos níveis de colesterol aos 40 anos reflete diretamente na saúde cerebral aos 70.

Além da saúde vascular, o músculo esquelético representa outro patrimônio crucial a ser construído antes da velhice. Indo além de questões estéticas, o tecido muscular atua no metabolismo e serve como uma reserva vital de proteínas e aminoácidos. Em cenários de doença ou internação, o corpo recorre a essa reserva: os aminoácidos liberados pelos músculos ajudam a fabricar proteínas de defesa e a sustentar a atuação dos leucócitos, as células de defesa do organismo. Manter a força muscular é fundamental para preservar a caminhada, o equilíbrio, a capacidade de se levantar e a independência geral.
A estratégia de prevenção na faixa dos 40 anos inclui não fumar, evitar o consumo excessivo de álcool, praticar exercícios aeróbicos e de fortalecimento, além de cuidar da alimentação, do sono e da saúde mental. Tratar eventuais perdas auditivas e visuais, manter a mente ativa e cultivar laços sociais também são passos essenciais. Adoecer e perder a autonomia não são etapas inevitáveis do processo de envelhecer.

Adotar esses cuidados na meia-idade não significa privar-se do presente em função do futuro. A lição central da metáfora entre a formiga e a cigarra reflete a importância de aproveitar o momento atual sem deixar de se preparar para os anos seguintes, garantindo o bem mais precioso na velhice: a liberdade e a independência para viver.
Arnaldo Pinto Guedes de Paiva Neto é médico geriatra e autor de “Palimpsesto: O corpo que se reescreve”, resultado de um trabalho que integra evidências científicas e reflexão teórica para compreender como a vida preserva informações apesar das constantes mudanças.





