Liderança omissa: os riscos de Burnout e assédio

*Por Ludmila Santoro

Ludmila Santoro. Foto: Divulgação

A linha que separa a exigência por resultados de alta performance do esgotamento completo de uma equipe é bem definida pela legislação brasileira. No entanto, muitas corporações só percebem a gravidade dessa fronteira quando são notificadas pela Justiça do Trabalho. O avanço acelerado da síndrome de burnout e a profusão de processos por assédio moral deixaram de ser pautas restritas aos departamentos de Recursos Humanos e assumiram posição central nas decisões de diretorias e conselhos de administração.

Um dos principais equívocos da gestão é classificar diagnósticos médicos de esgotamento como fraqueza individual, falta de resiliência ou subjetividade do funcionário. Essa perspectiva desconsidera que a legislação do país não tolera a omissão patronal. Ambientes corporativos tóxicos acarretam responsabilidade legal objetiva para as empresas, e as consequências financeiras e jurídicas dessa omissão são aplicadas de forma rigorosa.

Um dos principais equívocos da gestão é classificar diagnósticos médicos de esgotamento como fraqueza individual, falta de resiliência ou subjetividade do funcionário. Foto: Magnific

O custo da omissão e da conivência da liderança

A omissão sob a ótica jurídica manifesta-se comumente no silêncio conivente das lideranças. Ao ignorar metas abusivas, tolerar condutas inadequadas de gestores que atingem resultados financeiros no curto prazo ou normalizar jornadas exaustivas, a diretoria assume o risco de condenações judiciais.

O prejuízo financeiro dessa postura ultrapassa as indenizações fixadas por danos morais ao fim das ações trabalhistas. A conta reflete-se no aumento do absenteísmo, na alta rotatividade de colaboradores — que causa a perda de capital intelectual —, e no encarecimento de alíquotas tributárias vinculadas a acidentes e doenças ocupacionais. Perante o ordenamento jurídico, o empregador possui o dever inafastável de vigilância e proteção. A falta de monitoramento sobre o comportamento de chefias e a saúde física e mental das equipes caracteriza cumplicidade nos danos causados.

O prejuízo financeiro dessa postura ultrapassa as indenizações fixadas por danos morais ao fim das ações trabalhistas. Foto: Magnific

Da postura reativa à prevenção jurídica

Para reverter esse quadro, especialista alertam que as empresas precisam abandonar ações puramente reativas. Tentar conter danos após o ajuizamento de processos ou após a eclosão de crises de imagem demonstra perda de controle operacional.

A gestão de pessoas contemporânea exige o suporte de uma consultoria jurídica preventiva e especializada. É essa assessoria que viabiliza o estabelecimento de limites claros para cobranças, a estruturação de políticas internas rígidas contra o assédio e a aplicação de sanções a condutas abusivas, independentemente do nível hierárquico do envolvido.

Tratar o esgotamento profissional com rigor técnico e seriedade deixou de ser apenas uma conduta ética: tornou-se um imperativo de sobrevivência econômica e sustentabilidade para o futuro das organizações.

Para reverter esse quadro, especialista alertam que as empresas precisam abandonar ações puramente reativas. Foto: Magnific

Ludmila Santoro é psicóloga, pós-graduada em Orientação Familiar e Psicoterapia Breve pelo Instituto Sedes Sapientiae, com 30 anos de experiência clínica.