Mitos e verdades sobre o câncer de pulmão

O câncer de pulmão é a principal causa de morte entre tumores malignos no mundo e no Brasil, e cercado de estigmas. Globalmente, somente em 2020, 2,2 milhões de pacientes foram diagnosticados com a doença, e 1,8 milhão de pessoas perderam a vida em decorrência da enfermidade. Pesquisa feita pelo Instituto Ipsos a pedido da Sanofi mostra que 92% dos brasileiros acreditam que fumar pode aumentar o risco de câncer de pulmão o que é verdade. De fato, o câncer de pulmão é fortemente associado ao tabagismo, que é o principal fator de risco para a doença. O que pouca gente sabe é que pessoas que nunca fumaram também podem desenvolvê-lo. Além disso, sintomas como dificuldade para respirar profundamente, tosses sem motivo aparente e um cansaço sem explicação podem ser facilmente confundidos com outras enfermidades e menosprezados, o que dificulta o diagnóstico precoce.

A médica Dra. Anna Paloma Ribeiro, oncologista e hematologista, membro das principais associações de oncologia do mundo como a americana (ASCO), europeia (ESMO) e brasileira (SBOC) além de Professora de Oncologia da Universidade Estadual de Feira de Santana, diretora técnica da UNACON. esclarece os principais pontos relacionados ao câncer de pulmão:

Só quem fuma ou já fumou pode ter câncer de pulmão?

Mito

Segundo a especialista, o tabagismo, de fato, é o principal fator de risco em cerca de 85% dos casos diagnosticados, a doença está associada ao consumo de derivados de tabaco. Apesar de representativo, a causa não é única. Fatores genéticos também podem causar a doença histórico familiar, uso de cigarros eletrônicos e narguilés, são alguns dos fatores de risco o que significa que pessoas que nunca puseram um cigarro na boca ou conviveram com um fumante também podem desenvolver a doença.

Outras doenças pulmonares podem ser fator de risco para câncer de pulmão?

Verdade

Os fatores de risco para estas doenças são os mesmos, como por exemplo o cigarro. A presença de Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica, como enfisema pulmonar e bronquite crônica, podem aumentar o risco de um indivíduo desenvolver câncer de pulmão, já que, apesar de não causarem o câncer, essas doenças podem criar um ambiente que favoreça o aparecimento do tumor. Desta forma, o ideal é que pacientes com estas doenças crônicas sejam acompanhados regularmente.

Apenas cigarro convencional pode causar câncer de pulmão?

Mito

Apesar de pouco ser falado, os trabalhos rurais ou em fábricas podem ser prejudiciais à saúde caso a pessoa não tenha os cuidados necessários. Os processos de fabricação de borracha, pavimentação, coberturas, pintura ou varredura de chaminé, podem provocar doenças pulmonares que podem evoluir para uma fibrose (uma espécie de ferida contínua no pulmão que faz com que o órgão “endureça” a parte atingida), pneumonias severas etc., devido à exposição a agentes tóxicos.

A poluição externa, presente nas grandes cidades e proveniente da exaustão de motores de veículos a diesel, ou a existente em ambientes internos, como a fumaça presente na cozinha, também podem levar ao aparecimento da doença.

Cigarros eletrônicos continuam sendo comercializados facilmente na internet, na porta de bares e restaurantes e nos grandes eventos sociais frequentados pelos jovens (foto: propulmao.com.br/Reprodução )

É possível viver com qualidade após o diagnóstico do câncer de pulmão?

Verdade

Atualmente, além da cirurgia quando viável que é a intervenção com melhor prognóstico para casos que permitem, há três grandes opções de tratamento sistêmico que atingem as células tumorais pela via sanguínea: terapia-alvo, imunoterapia e a mais conhecida quimioterapia.

“Antes de iniciar o tratamento sistêmico, o oncologista irá solicitar exames para identificar no tumor mutações específicas que permitem o uso de medicamentos mais direcionados, a chamada terapia-alvo” explica a médica.

Como algumas dessas mutações ativam a proliferação das células tumorais, seu bloqueio por meio da terapia-alvo pode eliminar o maior número possível das células “doentes”.

Existem também medicamentos imunoterápicos, que ajudam o sistema imunológico a combater o câncer bloqueando as estruturas biológicas que “alimentam” o crescimento do tumor.

O tabagismo é o responsável por 80% dos casos de câncer de pulmão Foto: yodiyim / stock.adobe.com

As células tumorais geralmente expressam a proteína PD-L1 em sua superfície para driblar o sistema imunológico. Esses medicamentos bloqueiam a proteína PD-L1 ou a proteína correspondente PD-1 em células do sistema imunológico ou em células tumorais, ajudando o sistema imunológico a reconhecer e destruir essas células. Esses medicamentos estão aprovados para uso no câncer de pulmão de não pequenas células avançado.

Essas novas gerações de medicamentos aumentaram significativamente a sobrevida dos pacientes nas últimas décadas, permitindo que alguns pacientes vivam por anos com qualidade de vida.

Só existe um tipo de câncer de pulmão?

Mito

Muita gente não sabe, mas o câncer de pulmão não é uma doença única. Existem dois tipos mais prevalentes de câncer de pulmão: o de pequenas células (CPCP) e o de não pequenas células (CPNPC). O primeiro corresponde a aproximadamente 15% dos casos e tende a crescer e se espalhar mais rapidamente. O segundo tipo, de não pequenas células, corresponde a 80% 85% dos casos.

Este tipo de câncer de pulmão ocorre principalmente em pessoas que fumam ou já fumaram, mas uma informação que não é amplamente difundida é que esse é o tipo mais comum de câncer de pulmão também em pessoas que nunca colocaram um cigarro na boca. Além disso, o câncer de pulmão de não pequenas células também tende a ocorrer com maior frequência em mulheres e é o mais comum em pessoas mais jovens.

“Como os sintomas podem variar entre os casos, é importante buscar orientação médica se surgir um sintoma novo ou persistente. A detecção de câncer de pulmão nos estágios iniciais é fundamental porque, uma vez que a doença progride e potencialmente se espalha para outros órgãos, o tratamento pode se tornar ainda mais complexo” concluí a especialista.