Vacinas contra o câncer avançam, mas exigem cautela

Pesquisas treinam o sistema imunológico para atacar tumores, mas ainda não existe uma vacina universal contra a doença

A possibilidade de criar vacinas contra o câncer deixou de pertencer apenas ao campo das ideias e já ocupa uma área importante da pesquisa médica. Estudos realizados em diferentes países avaliam imunizantes capazes de ensinar o sistema imunológico a identificar e atacar células tumorais. Os resultados iniciais são promissores, especialmente contra melanoma e tumores de rim, pâncreas, pulmão e cérebro, mas ainda não significam que uma vacina universal contra a doença esteja próxima das clínicas.

O primeiro ponto a ser esclarecido é que o câncer não é uma única enfermidade. O nome reúne mais de uma centena de doenças, com origens, mutações e comportamentos muito diferentes. Por essa razão, é improvável que uma só fórmula seja capaz de prevenir ou tratar todos os tumores.

O primeiro ponto a ser esclarecido é que o câncer não é uma única enfermidade. Foto: Magnific

Também existem dois conceitos distintos. As vacinas preventivas são aplicadas antes do surgimento da doença e protegem contra infecções capazes de provocar câncer. É o caso dos imunizantes contra o papilomavírus humano, o HPV, relacionados à prevenção de tumores do colo do útero, ânus, pênis, vulva, vagina e parte da boca e da garganta. A vacinação contra a hepatite B também reduz o risco de câncer de fígado.

Essas vacinas, portanto, já ajudam a prevenir milhares de casos, embora não atuem diretamente sobre um tumor existente. A vacina contra o HPV, por exemplo, não trata uma infecção já instalada nem elimina um câncer que tenha se desenvolvido.

Outra frente é a das vacinas terapêuticas, destinadas a pacientes que já receberam o diagnóstico. Elas funcionam como uma forma de imunoterapia: apresentam ao sistema imunológico determinados sinais presentes nas células malignas para que as defesas do organismo aprendam a reconhecê-las e combatê-las.

Outra frente é a das vacinas terapêuticas, destinadas a pacientes que já receberam o diagnóstico. Foto: Magnific

Já existe nos Estados Unidos uma vacina celular aprovada para alguns pacientes com câncer de próstata metastático resistente ao tratamento hormonal. O produto é preparado a partir das próprias células de defesa do paciente e não representa uma cura para todos os casos. Sua utilização é restrita a condições clínicas específicas.

A maior expectativa atual está nas vacinas personalizadas contra os chamados neoantígenos. Essas substâncias são produzidas por mutações encontradas nas células cancerígenas, mas não nas células saudáveis. Para criar o tratamento, os pesquisadores analisam geneticamente uma amostra do tumor, selecionam os alvos mais adequados e produzem uma vacina exclusiva para aquele paciente.

A maior expectativa atual está nas vacinas personalizadas contra os chamados neoantígenos. Foto: Divulgação

O objetivo é ensinar os linfócitos T, importantes células do sistema imunológico, a localizar e destruir qualquer célula que apresente aquelas alterações. Em muitos estudos, a vacina é administrada após a cirurgia, quando o tumor já foi retirado, para tentar eliminar células microscópicas restantes e diminuir o risco de a doença voltar.

A tecnologia de RNA mensageiro tornou esse processo mais rápido. O princípio é semelhante ao utilizado nas vacinas contra a Covid-19, mas o conteúdo é diferente: em vez de carregar instruções relacionadas a um vírus, o imunizante apresenta características moleculares específicas do tumor do paciente.

Um dos programas mais avançados avalia uma vacina personalizada de RNA mensageiro associada à imunoterapia em pacientes com melanoma de alto risco retirado por cirurgia. Depois de resultados encorajadores em uma etapa intermediária, o tratamento passou a ser estudado em ensaios clínicos de fase 3, necessários para confirmar sua eficácia e segurança em um número maior de pessoas.

Em muitos estudos, a vacina é administrada após a cirurgia, quando o tumor já foi retirado, para tentar eliminar células microscópicas restantes e diminuir o risco de a doença voltar. Foto: Freepik

Pesquisas também avançam em câncer de rim e pâncreas. Pequenos estudos observaram respostas imunológicas duradouras e períodos sem retorno da doença em parte dos participantes. Os números despertaram interesse, mas as amostras ainda são reduzidas e não permitem afirmar que as vacinas tenham impedido definitivamente a recidiva. Estudos maiores estão em andamento.

No glioblastoma, um tumor cerebral agressivo, uma vacina experimental de RNA mensageiro provocou rápida ativação do sistema imunológico em uma pesquisa inicial com apenas quatro pacientes. O resultado abriu caminho para novos testes, mas está longe de comprovar benefício clínico ou aumento da sobrevivência.

Esse cuidado com a interpretação é fundamental. Uma resposta imunológica significa que o organismo reagiu à vacina, mas não garante automaticamente a redução do tumor, o aumento da sobrevida ou a cura. Antes de chegar aos hospitais, qualquer novo tratamento precisa passar por diferentes fases de pesquisa, comparação com as terapias disponíveis e avaliação das autoridades sanitárias.

A ciência está avançando, mas a expressão “vacina contra o câncer” precisa ser usada com responsabilidade. Foto: Magnific

Outro desafio é o tempo e o custo de produção. Como algumas vacinas são individuais, cada tratamento exige sequenciamento genético, análise computacional, seleção dos alvos e fabricação específica. Pesquisadores trabalham para reduzir esse intervalo e desenvolver fórmulas que possam atender grupos maiores de pacientes com características tumorais semelhantes.

A ciência está avançando, mas a expressão “vacina contra o câncer” precisa ser usada com responsabilidade. Não existe hoje um imunizante capaz de proteger qualquer pessoa contra todos os tipos da doença, nem uma vacina de RNA mensageiro aprovada para curar tumores em geral.

O cenário mais provável é o surgimento gradual de diferentes vacinas para situações específicas, utilizadas principalmente em combinação com cirurgia, quimioterapia, radioterapia e imunoterapia. Elas poderão ajudar a evitar a volta de determinados tumores, prolongar a sobrevivência ou ampliar as opções para pacientes que não respondem aos tratamentos atuais.

A pergunta, portanto, não é simplesmente quando “o câncer” ganhará uma vacina, mas quais tipos da doença poderão ser prevenidos ou tratados por meio dela. Parte dessa resposta já existe, com as vacinas contra HPV e hepatite B. A próxima poderá vir dos tratamentos personalizados, desde que os estudos em andamento confirmem, com segurança, os resultados que a ciência começa a observar.

…Bom dia! “Mude seus pensamentos e você muda seu mundo”

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