Vogue World: Milano transforma a Galleria Vittorio Emanuele II em celebração do feito à mão

Evento realizado na noite de 22 de setembro abriu a Semana de Moda de Milão com desfile em cinco atos, performances de Alicia Keys e Roberto Bolle e um tributo à criatividade italiana diante da inteligência artificial

Por: Jefferson de Almeida

A Galleria Vittorio Emanuele II, um dos endereços mais emblemáticos de Milão, foi transformada em passarela na noite de 22 de setembro para receber o Vogue World: Milano. A quinta edição do projeto global da Vogue abriu oficialmente a Semana de Moda de Milão ao reunir moda, artes cênicas, música e patrimônio cultural em uma apresentação concebida como homenagem ao “Made in Italy”.

O evento teve como eixo central a força do trabalho artesanal italiano diante dos avanços da inteligência artificial. Sob o tema “Where the Future Is Made by Hand” — em tradução livre, “onde o futuro é feito à mão” — a noite colocou em diálogo o saber manual, a indústria, a inovação têxtil e a imaginação como atributos que continuam essencialmente humanos.

A programação foi dividida em cinco atos. O primeiro, “A Revolução Artesanal”, trouxe referências renascentistas, com brocados, rendas, ornamentos e superfícies trabalhadas à mão. A abertura ganhou ainda um forte componente simbólico: artesãos apresentaram uma miniatura do Duomo de Milão, um globo celeste e um tear, objetos que sintetizaram a relação entre arte, técnica e memória.

Na sequência, “A Revolução Industrial” levou à passarela a atmosfera de Turim, cidade associada à indústria automobilística e à manufatura italiana. A alfaiataria, os tecidos de lã em tons monocromáticos e a precisão das formas conduziram este momento, dedicado à passagem entre a produção manual e o desenvolvimento industrial do país.

O terceiro ato, “Made in Italy”, celebrou a exuberância de cores, estampas e referências cinematográficas. Inspirado no imaginário de Federico Fellini e na estética de La Dolce Vita, o segmento recuperou a imagem da diva italiana e a vocação do país para unir moda, cinema e espetáculo. Jennifer Lopez foi um dos nomes que surpreenderam o público ao entrar em cena com um look Dolce & Gabbana.

O intermezzo foi marcado pela participação de Roberto Bolle, étoile do La Scala, em coreografia criada por Laccio. A apresentação conectou o balé à linguagem contemporânea da moda, com figurinos assinados pela Ferrari, e reforçou a presença do Teatro alla Scala na construção da noite.

Em “A Era da Inteligência”, quarto ato do desfile, materiais inteligentes e têxteis sustentáveis entraram em foco. A proposta foi discutir como pesquisa, tecnologia, esporte e moda podem coexistir sem apagar a autoria humana. O Coro da Accademia Teatro alla Scala participou da apresentação com 103 coralistas, vestidos pela Benetton, enquanto Alicia Keys subiu ao palco em criação exclusiva do Bureau of Imagination.

O encerramento, “A Revolução da Imaginação”, projetou o olhar para o futuro. Grandes casas italianas apresentaram vestidos criados a partir de códigos próprios de suas trajetórias, em uma leitura de como a herança do passado pode servir de matéria-prima para a invenção. Fendi, Valentino, Giorgio Armani Privé, Ferragamo, Bottega Veneta, Gucci e Dolce & Gabbana estiveram entre as marcas presentes no desfecho.

O tapete vermelho também concentrou nomes de diferentes gerações e áreas criativas. Jennifer Lopez, Dakota Johnson, Naomi Campbell, Hunter Schafer, Pamela Anderson, Monica Bellucci, Jason Momoa, Anna Wintour, Donatella Versace, Miuccia Prada e Alexa Chung estiveram entre os convidados.

Mais do que um desfile, o Vogue World: Milano ocupou a galeria entre o Duomo e o Teatro alla Scala como uma declaração de princípios: em uma era de automação e inteligência artificial, a criatividade, o domínio técnico e a capacidade humana de imaginar seguem no centro da moda. Parte dos recursos arrecadados será destinada à Biblioteca Quarto Oggiaro, em Milão, reforçando a dimensão cultural e social do encontro.