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Quando o pet é família

Foto: Pexels

*Por Juliana Sato

Juliana Sato

Nos últimos anos, especialmente após a pandemia, a relação entre humanos e animais de estimação passou a ocupar um espaço diferente nas conversas sobre afeto e pertencimento, com pets sendo chamados de filhos, companheiros, a presença mais constante em tempos de instabilidade.

O Dia Internacional da Família, celebrado em 15 de maio, é uma oportunidade para nomear algo que muitas pessoas já vivem, mas que ainda busca reconhecimento formal: o pet como parte constituinte da configuração familiar, e não como uma presença afetiva que orbita essa configuração de fora.

O pet é parte constituinte da configuração familiar, e não como uma presença afetiva que orbita essa configuração de fora. Foto: Pexels

Quando pergunto às pessoas o que sentem perto do seu animal, as respostas chegam como descrições de estados, uma sensação de segurança e de confiança que reconhecem com clareza, mas que têm dificuldade de nomear com precisão, porque não é exatamente igual a nenhuma outra coisa que já sentiram, e isso, por si só, já diz muito sobre a natureza desse vínculo.

O afeto que se constrói entre um ser humano e seu animal tem configuração própria, desenvolvida naquela relação específica, com aquele animal específico, ao longo de uma convivência que não se encaixa bem nas categorias que usamos para descrever outros tipos de amor e que, justamente por isso, merece ser reconhecido nos seus próprios termos.

O afeto que se constrói entre um ser humano e seu animal tem configuração própria. Foto: Pexels

Parte dessa dificuldade de nomear vem do fato de que esse vínculo se constrói em grande medida no não-verbal, no ritmo compartilhado do dia, na forma como o animal responde à presença de quem cuida dele e como quem cuida aprende a ler o que o animal comunica sem palavras. É uma intimidade que se forma devagar, no cotidiano, e que vai organizando a vida afetiva de uma maneira que muitas vezes só se percebe em toda a sua dimensão quando essa presença não está mais lá.

A pesquisa que estuda esse vínculo há décadas aponta que o bem-estar que emerge dessa relação não pertence a nenhum dos dois isoladamente, mas à configuração que constroem juntos ao longo do tempo. Isso ajuda a entender por que tanta gente descreve o pet como parte da família sem hesitar, e por que essa descrição não é exagero afetivo, mas uma leitura precisa de como os vínculos funcionam na prática da vida.

Reconhecer esse vínculo no Dia Internacional da Família não é ampliar o conceito de família de forma sentimental, mas atualizá-lo à altura da vida que as pessoas realmente vivem.

Juliana Sato é psicóloga especializada em vínculo humano-animal